O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

O barulho silencioso

         Poderíamos, grosseiramente, colocar o filme “O Som ao Redor”, do cineasta Kleber Mendonça Filho, na seara de filmes onde a crônica social pinta o meio por onde suas personagens dançam em suas paranoias. Mas correríamos o risco de enquadrar a linda obra do diretor pernambucano no grupo de alguns desordeiros, que utilizam as muletas fincadas em uma temática supostamente “séria”, “comprometida”, a fim, apenas, de levar seus paquidérmicos e estéreis filmes a um patamar isento de quaisquer questionamentos e pedras nos bolsos. Kleber Mendonça Filho se entrega à sétima-arte. Nós, brasileiros, adornados por uma síndrome de vagabundo e cachorro sarnento, precisamos nos afirmar como algo que existe, ser-nação, alma multicolorida e rica, que inala oxigênio, politizados e que também respira cultura e sabe comer de talheres. Seu filme não deseja afirmar e é sobre o indivíduo. Acende o som que tentamos propagar ou anular em nossos poros. Um drama do indivíduo disfarçado de crítica social. Com facilidade, as imagens saltam aos olhos, vide a cena de abertura, onde planos em preto e branco instauram um lugar, espaço, que, outrora, carregado de sofrimento com o cheiro sanguinolento do pesadelo em suas almas, permite a leitura de um dos microcosmos que cintilam na obra. Corte para uma garota de patins, símbolo de movimento e que carrega o corpo, apenas, para outro lugar, mas que leva a mesma força da inação do espírito, vazio, sem direção. Uma fatia de um condomínio, babás e suas crianças tateando o gosto pela “liberdade”, bolas, bambolês, meninos agrupados em um canto do enquadramento, a tentativa de refrear o esmagamento da construção e seus ruídos, a motosserra irritante queima e provoca inquietação. Talvez seja essa a palavra para descrever a construção de “O Som ao Redor”: inquietação. 


     A narrativa acontece em torno de um quarteirão. A rua, usada como painel de declarações, dizeres grafados no asfalto, é a única detentora da aparente racionalidade. É ela quem testemunha o mundo insano e o medo irracional que os moradores sentem. Os seguranças que chegam ao local, com o suposto objetivo de trazer paz aos moradores, oferecem proteção; os “anjos da guarda” sentem receio do mal estar de uma mulher que sai do carro para vomitar e de uma criança trepada na árvore.Thriller soprando a vizinhança. O ronco do marido, os latidos do cachorro, os filhos debruçados sobre a aula de Chinês, fazem a moradora querer a máquina de lavar roupa invadindo seus desejos carnais. O carinho oferecido pela máquina em um plano próximo da parte intima da angustiada mulher cria essa proporção da tensão. O morador que defende o porteiro das acusações de estar dormindo no trabalho é o mesmo que desconfia dos pés nus do filho de sua empregada, largados e deitados no sofá de sua casa. O Scope, alargamento da tela, usado em “O Som ao Redor” potencializa esse torpor, reduz o homem a obedecer e admitir sua pequenez perante o espaço ambiente; a força misteriosa que rege nosso redor, a bola “não” utilizada, o aparelho importado queimado acidentalmente pela empregada, o som roubado do carro. A massagem dos filhos na mãe, alinhados como uma máquina sobre um corpo corroído pelo estresse, traz o barulho, a música. Relaxar corpo e mente em meio ao grito da canção, a voz alterada. A música alivia, porém também tensiona; o vendedor de discos piratas e seu carrinho alto incomodando a vizinhança. 


 Um filme de horror disfarçado de drama familiar. Aferir o novo trabalho de Kleber Mendonça como um filme do "horror" não seria exagero, levando em consideração que seu realizador fez o curta-metragem “Vinil Verde”, 2004, e que a palavra vem do sentimento de “repulsa”, o real contém o “horror”. Se no curta o que acontece nos corredores, cômodos da casa, onde a menina é proibida de escutar o vinil que dá nome ao título, provoca arrepios, agora, o ambiente, em “O Som ao Redor”, fabrica-os; é um plano entrecortado pelo vulto de uma criança no corredor, a espera  incômoda dos guardas na cozinha do patriarca, os corredores brancos do prédio que mais se “parecem uma fábrica”, diz a certa altura um personagem. A cena do sonho traduz o medo, temor, constante que habita o ser humano. Quando Kleber Mendonça mostrou Halloween (1978, de John Carpenter), Amantes (2008, de James Gray) e outras obras para sua equipe e seu diretor de fotografia, Pedro Sotero, sua intenção era sugerir um aprendizado sobre a arquitetura da vizinhança em uma tela larga e sentir o realismo filmado à maneira da Hollywood clássica, sem “falcatruas”, como declarou o cineasta. Em Amantes, o classudo cineasta James Gray mancha na tela suas personagens com o gosto agridoce do real, palpável, onde a câmera se aquieta e observa o percurso dolorido por qual o personagem de Joaquim Phoenix é obrigado a trilhar. Observar. É o que a câmera em “O Som ao Redor” opera. O que salta das telas é a permanência do horror em nosso doce e, por vezes, aborrecido cotidiano. "O Som ao Redor" é o barulho silencioso que o cinema brasileiro precisava.


Fogo contra fogo, de Michael Mann

A poesia do crime

Michael Mann é um realizador que tem em seu currículo, entre outros, o feito de ter  despejado cores em uma das grandes séries americanas dos anos 80, Miami Vice. A falácia interminável, e enfadonha, no meio artístico, à época, 1995, sobre a nova empreitada do diretor, chamada  Fogo Contra Fogo, era calcada em apenas uma dimensão: o encontro de dois gigantes nas telas, Robert de Niro e Al Pacino.  Grande parte das quase três horas de duração do espetáculo visual que o diretor oferece é baseado em um confronto da vida real de um detetive de Chicago, Chuck Adamson. Parceiro do cineasta em vários filmes, incluindo Fogo Contra Fogo, Chuck ajudou a tirar da câmera a trama sobre a obsessão de dois indivíduos e suas profissões. A filmografia de Mann carrega em seu corpo a tatuagem do crime. Suas amizades com alguns detetives da policia da vida real o ajudaram a estabelecer em suas obras a dinâmica viva, palpável, do crime sem enfeites. O que é visto na tela é o resultado  de vinte anos de pesquisa. O que interessa a Mann é a natureza humana de criminosos e policiais. Nada mais que indivíduos. E, se o individuo corrompe ou não, é dado a ele o direito de se mostrar.


E, a nós, o de conhecer os seus meios, o planejamento, suas almas e seus sinais. Nada mais justo que, nesse tempo dilatado em uma superfície plana, chamada tela, cinema, o diretor possa expressar seu sentido artístico, sua essência e voz.  No caso de Fogo Contra Fogo, transfigurada em uma gritaria que beira o irreal. Nesta obra, filmada com pulso firme pelo próprio diretor, Mann abraça a obsessão de suas personagens, gosta de operar a câmera, de invadir e olhar sua cria de perto. A suposta realidade dentro da obra perde espaço para o jogo restaurador que ele executa. Chama dois dos grandes astros de filmes de ação para um confronto: uma batalha de emoções que raras vezes a tela pôde testemunhar. É no terreno dos filmes de gênero que Fogo Contra Fogo pisa, restaurando-o como uma agulha incendiária.

Na obra, a dedicação que os indivíduos possuem com seus trabalhos cheira forte em cada ambiente. Esse sentimento forte, desenfreado,  por parte dos heróis - sim, na obra mocinho e bandido são dois lados da mesma moeda -  com seus trabalhos, os coloca em um casulo de envelhecimento. A solidão que rasga do peito de Vincent e Neil, duas almas cambaleantes, é sentida na textura visceral que compõe cada cena. Difícil e raro tratamento na sétima-arte, o objeto filmado deixar escapar profunda comunhão entre os vários artifícios e acessórios que a compõem: plasticidade das imagens, trilha sonora, texto, riqueza dos personagens.  A Los Angeles retratada é o isolamento encurralando as duas feras que buscam se completar na escuridão trágica de suas vidas - vazias, quando separadas de seus ofícios, de suas obstinações. Testemunhar a operação religiosa dos personagens em Fogo Contra Fogo é sair cego de um tiroteio melancólico e poético, onde poucas vezes o cinema soube enfrentar.

 Aerton Martins ( APJCC - 2012)


Serviço: "Fogo Contra Fogo".
Dia 19 de Julho, quinta-feira às 18h30
Cine Teatro do CCBEU
(Travessa Padre Eutíquio, 1309)
ENTRADA FRANCA

 

 

Vale a pena ver de novo?

Homenagem ao dia do centenário do Cine Olympia

 

 Desde 2006, ano em que o Cine Olympia “passou” das mãos da família Severiano Ribeiro para a mesa da prefeitura, a novela anda se arrastando - digna de um dramalhão que faria qualquer Maria do Bairro meter o rosto na lama de tanta vergonha.  2012 é o ano de comemorar, bradar, puxar o último sinal de oxigênio. De estufar o peito e gritar de joelhos nas maltratadas mangueiras de nossa cidade, que, em Belém do Pará, existe, quiçá, o cinema mais antigo em atividade do mundo. Que honra! As atividades alusivas ao aniversário do espaço senil começaram este ano: mostra de filmes - projetados em DVD -, palestras, mesas redondas etc e etc. O centenário Cine Olympia virou Patrimônio Histórico e Cultural do Município de Belém. O projeto que circula promete “promover, garantir e incentivar a preservação e o tombamento do Cine Olympia, que também passará a ser exclusivamente e definitivamente um centro de exibição de obras audiovisuais”. Segundo a Câmara Municipal de Belém, no correr dos anos, pouco se fez pelo prédio e suas instalações. À época, o prefeito Duciomar Costa “resolveu atender aos APELOS da sociedade, que compareceu à sessão de despedida, e viu nosso 'líder' assinando um contrato com o proprietário da casa, para mantê-la, por três anos, como espaço cultural”. Dia 24/04/12, o espaço comemora com o "dia especial",  intitulado docemente de "Dia do Centenário do Cinema Olympia" - que está sendo divulgado e o público "comum" não pode participar. A  participação do espectador  depende de um  convite; "Entrada mediante apresentação de convite". Grande mimo para aqueles que, realmente, fazem, um espaço de exibição funcionar. No dia 14 de abril de 1912, aconteceu  o naufrágio mais famoso do mundo, a embarcação luxuosa Titanic afundou. Dez dias depois do acidente, um espaço chamado “Olympia”, na terra das  mangueiras, recebe pessoas chiques para presenciar a beleza que cerca a sétima-arte. Parece que o maior naufrágio da história perde seu posto. O “dia especial” está marcado para começar às 18hs. É o recomeço de um filme do qual sabemos como será o fim.

Em tempo: depois do filme “Titanic” (1997), de James Cameron, não existiu outro que levasse tanta gente ao Cinema Olympia. Fazer do espaço o que era antes é uma tarefa árdua, em função das diversas crises que atingiram as salas de exibição. Mas um pouco de respeito com o público, que gera força ao, ainda, lindíssimo cinema, não é pedir demais.


Aerton Martins (APJCC- Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema)

 


APJCC e Sesc Boulevard promovem oficina de Literatura e Cinema

Literatura  e  Cinema   são   artes  que   sempre caminharam   juntas  –  muito  se  fala   da influência   de   uma   sobre   a  outra,  da contribuição  de  uma  para  a  outra.  Esta   oficina  pretende  abordar  essa  relação  já  centenária,  porém  sem  recorrer  necessariamente  à  adaptação  cinematográfica  propriamente  dita. O foco, aqui, estará em influências e contribuições nem sempre tão óbvias para o público. Qual a relação entre D. Quixote de Cervantes e o Carlitos de Chaplin? No que se assemelham os personagens violentos de Dostoiévski e os policiais desesperados de Michael Mann? Ou ainda, o que Virgina Woolf tem a ver com Alain Resnais? A Oficina Cinema e Literatura se propõe a reflexão de todas essas relações possíveis, buscando uma compreensão sincera da essência de cada uma dessas artes que tanto ofereceram (e oferecem) à humanidade.

Felipe Cruz - APJCC- Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema- 2012

Serviço:

Oficina de Literatura e Cinema
Ministrante: Felipe Cruz
De 18 à 21 de Abril, quarta à sábado das 10h às 13h
no Sesc Boulevard - Av. Boulevard Castilho França, 522/523-Campina

INSCRIÇÕES GRATUITAS que já estão abertas no local onde ocorrerá a atividade, sendo efetuadas de terça a domingo no horário de 10h às19h.

Realização: APJCC e SESC Boulevard

Mais informações:
sescboulevard@gmail.com
Twitter: @sescboulevard
Twitter da APJCC
Facebook
Facebook Felipe Cruz

   

Para Drive

"Um ser humano de verdade. Um verdadeiro herói..."

Ruas. Múltiplas personalidades. Animais e suas vielas impenetráveis. O revestimento de escorpião em sua jaqueta sente o coração. Ele derrapa brutalmente e leva sua alma para fora dos trilhos quando conhece sua vizinha. Instauração latente e sem floreios. Olhares. A sétima-arte parteja olhos vagabundos. A cidade não existe. A cada passo, a jaqueta fica cada vez mais imunda. É a pureza de dois seres que se descobrem. E se, porventura, o amor existe, chega sempre contaminado e com o charme de uma lâmina afiada. A violência em amar. Ah, se os poetas e trogloditas soubessem. Amar requer violência. Pisotear impiedosamente um rosto no mesmo lugar do beijo arfante. Outrora ele esconde-se sob o olhar, a profunda conexão que os corpos sentem. A aparência da inexpressividade, o erotismo anulado, a doçura em não dizer. O homem desvenda a câmera, com o rosto ensangüentado, ciente que sua estrada, agora, deteriorada, não é mais a mesma. A inocência de uma mulher, a primeira aparição no elevador, espaço que carrega um poder sombrio e sereno entre os olhares; a mulher descobre a força embrutecida de um bicho. O vazio dos seres, o cheiro do afeto, o amor que cria o desespero e o espírito emudece. A fuga prepara o equilíbrio e é ela quem estabelece a ordem. É preciso coragem, para ser um ser humano de verdade, um verdadeiro herói...

Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

Dissimulação para amar

Em "Cópia Fiel", do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, a abertura dispõe  a mesma piada  duas vezes, quase que simultaneamente. Enquanto espera pelo autor James Miller para uma palestra, seu tradutor pede desculpas pelo atraso do escritor e diz que “ele não pode culpar o tráfego, pois está no andar de cima do hotel”. O público inquieto troca olhares, silêncio, e logo após, James entra na sala e lança a mesma brincadeira. Só que agora os convidados soltam gargalhadas. Dentro dos instantes iniciais do filme, Kiarostami já prepara o espectador para o sustento de sua valiosa armadura; a cópia pode se tornar tão forte quanto a original. A questão do filme é definida por James em plano médio, por trás de uma mesa de leitura.  O escritor é inglês e está na Itália para lançar seu livro que questiona a autenticidade. Um encontro. Uma informação no papel. O encontro está armado.  Ela é dona de uma galeria de antiguidades. Não existem obras originais na arte e na vida.  Este é o argumento principal em "Cópia Fiel".  Expõe, em seu monumental jogo, uma série de preocupações.  Relações entre homem-mulher, presença e ausência, realidade e representação.

O casal ao longo de um dia conhece as  múltiplas e transversais camadas de um relacionamento. Em uma cena indispensável, o escritor sai de quadro para atender a um telefonema, uma garçonete  interfe na vida do casal: “ele deve ser um bom marido”. A mudança na direção da narrativa e das personagens dentro das personagens é segurada pelo frontalidade dos planos. Em poucos segundos, de desconhecidos passam para casais íntimos e que se conhecem há muito tempo. Pela primeira vez, os dois enfrentam a câmera de frente, a intimidade desarma qualquer espectador, os dois explodem em gestos negativos e troca de insultos que se prolongam na saída do bar. A narrativa é estabelecida com uma mise en scène rica em labirintos – o diretor não nos permite “olhar” para o enquadramento em sua totalidade, anula a profundidade e a periferia do quadro fílmico. Uma espécie de tédio latente se instaura nas bordas que cercam o casal.  "Cópia Fiel" sugere a catarse das sensações, dos lamentos, da realidade.  Versa sobre o amor. Sentimento dos mais decantados que a arte e a humanidade adoram explorar. Somos as personagens no momento da desconexão do que se passa na tela. A dissimulação para amar, seja um ser humano, a vida ou a arte, é o que faz sermos mais fiéis às nossas escolhas. 

Super 8 , de J. J. Abrams

Arte é prazer

O cineasta J. J. Abrams declarou em uma entrevista que o objetivo de Super 8 era mais evocar a época de sua infância do que realizar uma homenagem aos filmes que o cineasta Steven Spielberg havia dirigido  nos anos 70 e 80. Super 8 , de fato,  carrega essa vibrante mistura do que o prodigioso diretor de E.T. O Extraterrestre pregou em sua jornada cinematográfica. J.J. Abrams é um colecionador de segredos, um mestre na arte de sonegar informações. Com a suavidade praticada por um mágico, o diretor completa: "Eu acredito em qualquer coisa que vai envolver o público e tornar a história mais eficaz.". No filme tudo se passa em uma pequena cidade no Ohio, em 1979. Crianças brincando com o cinema, o mistério da juventude por trás dos olhares de quatro amigos e seu processo de confeccionar um filme. O problema é que a câmera não  grava uma imitação de filmes de zumbis, mas um evento com  consequências incontroláveis.  Super 8 narra a história desses amigos que se juntam para fazer um filme , com uma câmera “super 8″. Em uma emblemática e poderosa sequência, J.J Abrams começa a tecer sua melodia do olhar,  ao mostrar o acidente com o trem desgovernado que acaba desencadeando uma série de ocorrências sobrenaturais.

O que domina no filme não é a dosagem filme-tributo, existe sim,  este componente que referencia  o sopro de aventura que os filmes oitentistas propagavam mobilizando a pura diversão,  mas o que esvazia, em certa medida, estes contingentes tão requisitados no excesso da tecnologia na  sétima-arte,  é a inscrição pessoal e a mão firme que o diretor  J. J. Abrams martela em sua duração. O cinema fascina e deve conter em toda sua maravilhosa engrenagem o poder do prazer. A arte em sua ampla divulgação do indivíduo e coletivo deve oferecer um mundo de diversão. J. J. Abrams captura em Super 8 o encanto do olhar, a inocência perdida. O que importa é a viagem e não o destino.  No caso a viagem fascinante que os garotos fazem em meio a turbulência resultante do espetacular acidente. Muito curioso que justamente Super 8, uma descarada, e linda, mistura de filmes que marcaram uma geração, como Os Gonnies, Conta Comigo e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, seja o filme mais autoral do diretor, que também é genitor de uma das séries mais comentadas dos últimos anos, Lost.

Super 8 é um filme que renega o sujeito ativo de sua trama, a criatura, para crivar realmente o que importa: a vida de um grupo de amigos pré-adolescentes. As questões são as mesmas, e são encontradas em inúmeras obras: a descoberta do amor, o adulto visto como ranzinza, a importância da amizade, o temor pelo desconhecido. O grande triunfo de filmes como Super 8, que se debruça na cartilha dos filmes de gênero, é justamente aproveitar e dosar ao máximo o que as convenções, ou clichês, podem lhe dar de novo, vide as obras marcantes do genial Quentin Tarantino. Em uma das cenas a criatura entra em um restaurante, não podemos vê-la, porque a placa da rua bloqueia seu ataque. Apesar dos segredos, dos mistérios que o diretor gosta de operar em torno se si, Super 8 é um claro tributo ao amor, onde a nostalgia vira sinônimo de vibração e a homenagem se dissolve dentro da poesia cinematográfica, feito pelas mãos de um artista que (re)conhece sua arte e sabe do que ela é capaz.

Aerton Martins (APJCC)* Texto originalmente publicado em dezembro de 2011,  para a mostra melhores de 2011 - 4 anos da APJCC.

 

 

Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas,

de Apichatpong Weerasethakul.

Sentido cinematográfico

 

Uma vaca amarrada. Um plano silencioso, escuro, é a única testemunha perante a ação inquieta deste animal que se movimenta, querendo ou não se soltar de uma corda, que a prende em uma árvore. Qualquer filme do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, que felizmente  adotou o apelido Joe, é um convite ao despertar cinematográfico. Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas é uma experiência recheada de sensações estranhas, no sentido de que a vida se transfigura em cada gesto, se reformula, é moldada a partir de uma ação iniciadora. Nada mais natural que a beleza em viver esteja presente na ruptura, em algumas estranhezas, na maioria das vezes sem respostas e em seus desdobramentos. Uma ação inicial em um filme do diretor tailandês pode ser um desabafo partindo de um monge que não está feliz no lugar que escolheu ou de uma princesa que questiona sua beleza, o tempo, ou as luzes de neon em um ambiente barulhento que invadem o mundo sereno por onde o filme todo respirou. Boonmee está lentamente morrendo de insuficiência renal, e as figuras de seu passado aparecem para ajudá-lo: o fantasma de sua mulher e seu filho, este  reaparece como uma figura distorcida,  não é mais um ser humano e sim um homem-macaco,  e  só enxerga as coisas na escuridão – firme e belíssima alusão ao “espectador fantasma” que somos, esperamos a vibração de outros seres em uma sala escura. A floresta que cerca Boonmee aparece como ameaçadora e misteriosa, assim como o mundo da sétima-arte e suas nuances.

Ela é repleta de criaturas. O filho do Boonmee  se tornou um homem-macaco por  ter acasalado com uma fantasma macaca. As barreiras no cinema do cineasta tailandês são inexistentes, o espectador viaja em meio aos personagens e os toma para si nessa magia do que a tela sempre permitiu, as espécies  são  transformadoras e transformadas, nascem e renascem; seja um feixe de luz que entra pela janela, os peixes em uma seqüência  memorável da jornada na caverna. As almas podem viajar de um corpo para outro. O filme não é tanto sobre o que acontece com Boonmee nos últimos dias de sofrimento. É o contraste entre o verde e a cidade moderna, entre natureza e homem, passado e presente. Vida, morte e recomeço. A cena onde o espírito da esposa de  Boonmme aparece gradativamente em uma trivial conversa no jantar é assustadora. Em uma seqüência, onde predomina fotografias estáticas, o protagonista  narra um sonho sobre um  futuro em que os viajantes do tempo são caçados e apagados quando sua imagem é projetada sobre uma tela.  O diretor mais uma vez pensa sobre a arte de realizar filmes, descrevendo a morte como uma projeção fotográfica.  Apichatpong Weerasethakul  é um  cineasta que desafia gêneros e estruturas narrativas, viveu em hospitais quando criança, conseguiu erigir um estilo próprio,  em meio a profusão de canalhices que surgem a cada segundo nas telas deixa Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, obra purificadora e que aponta em seu caminho um forte sentido da operação cinematográfica.

 

 

 

Terrence Malick

Sensível evidência

Poucos cineastas primam pelo percurso da imagem como energia motriz em seus filmes. Das linhas rabiscadas - o que a convenção chama de roteiro - aos planos acabados, existe uma figura e cabe somente a ela dar vida ao que vemos na tela. Este funcionário, conhecido como diretor, ora visto como um mero intermediário de ideias, ora é tido como um artista sem amarras, capaz de criar e estimular a consciência do espectador. Cinema é arte e o cineasta deve respeitar a que escolheu. Terrence Malick tem um profundo amor pela natureza e  seu ofício. Gosta de desafiar a tela como a vida desafia o ser humano. Seu primeiro filme, no Brasil batizado Terra de Ninguém, 1973, a fuga de um casal é o ponto de partida. O gestual dos protagonistas em junção com a natureza é a tônica da obra.

O casal vivido por Martin Sheen e Sisi Spacek quase não dizem. Terra de Ninguém se concentra na experiência deles frente aos valores de uma cultura que os pariu. Isento de dimensões explicativas. Não existem diálogos entre seus personagens, não no sentido de concluir uma linha dramática para compor a narrativa. São as imagens que dilatam as informações. Para Malick saber como dizer é tão importante e crucial quanto querer dizer. A mensagem está acuada entre os planos executados, escondida numa leve torção na câmera, no movimento sorrateiro de algum animal que entra do extracampo, ou que está ao lado de um ser humano, quase que obrigatoriamente em seus filmes; as ovelhas e a criança no desfecho de O Novo Mundo. Ver os gafanhotos nas folhagens de trigo em primeiro plano em Cinzas do Paraíso é sentir o sangue de um dos irmãos, que goteja lentamente sobre a folha do imenso campo verde, em A Árvore da Vida.

Não é de hoje que ele pensa cuidadosamente em seu rebento, cuida de um filme como uma mãe toma conta de sua cria. A abertura de Cinzas do Paraíso é tão silenciosa quanto à cena do menino enciumado com as mãos no bolso, em sua recente obra. Cinzas do Paraíso, seu segundo filme, estabelece Malick e seus códigos; cortes sincopados, pés que com a dança suavizam a mãe natureza, o solo, a família como unidade importante para a sobrevivência. É um doloroso romance sem amor. O choque entre o homem e o que o cerca, (ou aprisiona) é o que produz força em suas obras; a taça de vinho no fundo do lago em Cinzas do Paraíso, o céu visto pela primeira vez no desfecho de Terra de Ninguém, o amor nascido em meio as folhagens em O Novo Mundo, a contemplação do paraíso sendo substituída por um combate corpo a corpo em Além da Linha Vermelha. Terrence Malick é a sensível evidência da sétima-arte.

 

 

Ensina-me a fazer cinema


No Tempo das Diligências. 1939. Dir: John Ford.


Dragões da Violência. 1957. Dir. Samuel Fuller.


Onde Começa o Inferno. 1959. Dir. Howard Hawks.


Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. 1974. Dir. Sam Peckinpah

 

Três Homens em Conflito. 1966. Dir: Sergio Leone


 

Johnny guitar

Obra de um cínico

Uma mulher vestida de calça preta. Possui um laço verde ao redor do pescoço. No segundo andar ela brada com seus subalternos. Em poucos segundos a aspereza de sua ordem traga o lugar. Cheio de figuras masculinas, que ora estão na periferia do quadro fílmico, ora se apertam  no enquadramento como ratos em um experimento. E quem os comanda é uma mulher. Nada de anormal se o filme em questão não pertencesse a um gênero predominado por homens; o western. Em Johnny Guitar, 1954, o maldito e poético Nicholas Ray, nos oferece um banquete de texturas. Destas saltam aos olhos subversões que louco nenhum foi capaz de instaurar nas telas, talvez outro insano chamado Samuel Fuller. Nicholas Ray era um doente, alcoólatra, seus filmes carregam feridas expostas. Suas obras refletem a sujeira e brutalidade do mundo. O filme  Johnny Guitar é o maldito dos malditos. A poeira dos faroestes abandona o filme nos primeiros minutos e  a maldição se estabelece; Johnny Guitar entra no saloon, enxerga três homens trabalhando, a cor verde sobre suas cabeças e do ambiente contrasta com a escuridão que adorna o espírito de Vienna.

As cores na obra possuem expressiva força dramática.  Emma chega ao local de verde. Ela tem vergonha de gostar de Kid ou de Vienna? Nenhum passo é dado sem a ordem da imponente dona do estabelecimento. A tensão sexual, que é uma constante no filme, é liberada na grande sequência que apresenta Johnny, e culmina com a rival da protagonista chegando ao Saloon. O palco de tensões está aberto; Vienna, o músico Johnny, o dançarino Kid e a endiabrada Emma.  É justificável a falta de zelo com a obra à época de seu lançamento. É um filme furioso, esquisito. Nicholas Ray deu ao público um faroeste onde os homens duelam com instrumentos musicais, dança, ou a raiva é extravasada com uma garrafa de uísque arremessada contra a parede. Um dos empregados de Vienna faz apenas menção que vai tirar a arma do coldre. “Um homem precisa apenas de uísque e mulher na vida, diz Johnny”. Vienna precisa de  Kid e Johnny e o triângulo  é majestosamente definido quando o músico senta ao fundo do quadro com sua viola, desfocado, e ela em uma conversa com Kid em primeiro plano.

Em toda filmografia de Ray existe um homem fraco, desbotado, criança, que vive fugindo de sua realidade, e que precisa de uma figura feminina para lhe dar cor. Em Party Girl,1958, Robert Taylor faz um advogado com uma deficiência na perna esquerda, conhece a dançarina Vicki Gaye, é ela quem aceita seu carinho, independente de sua condição física. Em Juventude Transviada, 1955, James Dean interpreta Jim Stark , um homem que busca apenas o olhar de sua família, encontra a figura da mãe na nova amiga, Judy, interpretada pela provocante Natalie Wood.  Johnny não é diferente do protagonista de Juventude Transviada, ele quer fugir, não carrega arma, quando a utiliza explode sua violência repentina em um objeto no chão, mas o violeiro ainda deseja Vienna, e se joga aos pés de sua amada em uma das cenas mais lindas e bizarras do cinema; “minta pra mim, diz que me esperou todos esse anos...Diga que você morreria se eu não tivesse voltado, diga que você me ama como eu te amo”... A mulher que vivia de calças está com um vestido vermelho. Aos poucos seu comportamento masculino desaparece, dando lugar a uma mulher que só deseja se entregar ao seu homem. Os dois se beijam. Como ficar indiferente vendo Joan Crawford na soberba cena do piano, com um vestido branco elegante, cobrindo tudo até os pés? Johnny Guitar exibe uma exuberância artística que cegou, e ainda cega, os mais sensíveis. Tudo é berrante, belo e cínico. No fundo Nick Ray era o cineasta do cinismo. Rever Johnny Guitar é reverenciar a vida e a sétima-arte.

P.s.1- Revisão feita dias atrás em uma sessão no Líbero Luxardo.

P.s. 2- Eu jurava que só nos filmes da sessão maldita a imbecilidade enforcava alguns  incautos. Em uma simples cena, uma briga, algumas gargalhadas rolaram. (?!)

P.s.3- Odilene, obrigado por ter me convidado para (re)ver o filme.

 

 

O Garoto de Liverpool

Amor perigoso

 É fácil entender o amor, às vezes contestado por muitos fãs histéricos, que o líder dos Beatles nutria por Yoko Ono.  Muitas biografias lançadas sobre John Lennon, suas letras tanto em seu grupo como em carreira solo, denunciavam um amargor. Tudo em função das mulheres que passaram por sua vida. Lennon queria ser amado? Uma delas foi Mimi, sua tia que o acolheu depois que sua mãe, Julia, o abandonou. Em o “O Garoto de Liverpool” temos como pilastra o jovem John, em meio a uma guerra emocional entre duas mulheres.  Ele é inquieto,  vive perambulando pelas ruas de Liverpool, não dá a mínima para os estudos e quer ser Elvis. Cinebiografias são cruéis e o realizador opta pelo caminho que mais lhe agrada. Nada anormal a não ser que o diretor deixe a impressão  de que não esteve presente no processo. A diretora Sam Taylor-Wood oferece ao público um produto ralo, que se equipara a diversas cinebiografias, ruins e sem alma, onde existem apenas para justificar  a existência do biografado. Ou será que é novidade o suposto caso entre Lennon e sua mãe? Ou que Lennon formou seu primeiro grupo, The Quarrymen, depois da morte de seu tio?  A força de uma obra residirá na forma como o artista se colocará nela. Sam Taylor-Wood preferiu agradar a todos e ficar bem distante de seu filho. No saldo final temos um filme rasteiro e covarde. O amor que vemos depositado em “O Garoto de Liverpool” é perigoso. Não chega aos pés da mais latente falta de amor que Lennon sentia, por algumas de suas traquinagens musicais e pessoais.


Clube da luta no aniversário de um ano do coisas de cinema

Por Juliana Maués (APJCC)

 Uma das reclamações mais freqüentes do público de cineclubes é que as iniciativas, em Belém, só acontecem no centro da cidade. Em 2010, o “Coisas de Cinema” surgiu como uma opção para o público do distrito de Icoaraci. Parceria entre a Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC) e o Espaço Cultural Coisas de Negro, o cineclube comemora um ano de atividades na próxima quarta, 16, e exibe o filme “Clube da Luta”, de David Fincher. A entrada, sempre, é franca. As sessões semanais às quartas-feiras foram desenvolvidas com o propósito de exibir filmes importantes para a história do cinema e obras desconhecidas pelo grande público, independentemente do país de origem, ano de produção e gênero. A proposta foi cumprida e projeções de cinema brasileiro, italiano, americano, coreano e chileno ganharam a tela do “Coisas”. Quanto aos gêneros, terror, drama, suspense e romance são só alguns dos que estiveram presentes.

 Sessão de aniversário

 Escolhido por Aerton Martins, produtor do "Coisas", o filme “Clube da Luta” será exibido na comemoração do 1º ano de atividade do cineclube. A obra do diretor David Fincher de 1999 traz um dos personagens mais emblemáticos dos últimos anos: Tyler Durden, vivido por Brad Pitt em um dos melhores papéis de sua carreira.  A história acompanha Jack (Edward Norton), um executivo yuppie que trabalha como investigador de seguros e mora confortavelmente. A sua ansiedade o faz conviver com pessoas problemáticas, como a viciada Marla Singer (Helena Bonham Carter) e conhecer estranhos como Tyler Durden. Misterioso e cheios de idéias, Tyler apresenta a Jack um grupo secreto que se encontra para extravasar suas angústias e tensões através de violentos combates corporais.

 Serviço:

 Coisas de Cinema apresenta “Clube da Luta”, de David Fncher Data: 16 de março (quarta)Horário: 19h30Local: Espaço Cultural Coisas de Negro – Av. Lopo de Castro (antiga Cristovão Colombo), 1081/ IcoaraciEntrada franca!Realização: Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema e Espaço Cultural Coisas de NegroInformações: (91) 81522588 ou (91) 88906669

Bravura Indômita

A grandeza da alma

Em qualquer filme do mestre Howard Hawks podemos ver uma ardente beleza, sempre onde há algum cheiro do perigo. As amizades são perigosas,  amar é perigoso e requer prática. Os irmãos Coen elevam a enésima potência essa assertiva e (re)criam uma obra forte, que busca na cumplicidade de indivíduos a desculpa para sua existência, coisa que também Hawks adora enfatizar em seus filmes. Bravura Indômita  não é a refilmagem de um filme protagonizado por John Wayne, o filme dos Coen é um ser  carrancudo, isento de sentimentalismos, mas inundado de sentimentos, traço palpável em cada imagem que salta aos olhos. Existe a Mattie, que não tem medo do escuro e encara qualquer um que queira se intrometer em seu caminho. O federal Rooster adora a companhia do álcool e é contratado pela garota valente, que está decidida em mandar bala no assassino de seu pai. Laboeuf é um ranger texano e também deseja  encontrar o homem perigoso. O coração do filme  pulsa na relação dos três. Não interessa se nossas expectativas são golpeadas quando o assassino aparece, o filme sustenta essa mudança de tom desde o início, uma oscilação selvagem. A vida carrega essa selvageria, uma mutação que leva o ser humano a buscar sua harmonia. Mattie leva palmadas do Ranger mas depois busca seu olhar na linda seqüência da cerca. Bravura Indômita é um filme verdadeiro e libera em cada belíssimo plano não só a força da direção madura dos Coen, mas também a grandeza que cada alma pode oferecer.

 

 

Coisas de cinema apresenta o aclamado filme chileno Mirageman

O contexto realista do filme Mirageman o consagrou como um dos melhores filmes sobre super-heróis já feitos. A obra carrega uma força brutal mostrando o protagonista Maco, que motivado pela recuperação de seu irmão, enfrenta o crime. Ele não tem super poderes e não carrega a presunção e inteligência dos heróis que pululam na maioria das obras, mas exala verdade. Maco é de ‘carne e osso’, combate o crime pegando ônibus e ajudando o caminhão de lixo. O diretor Espinoza exibe um raro controle de direção  nas cenas de ação, prioriza a coreografia das lutas, demonstra um senso de equilíbrio supremo onde vibra humor, ação e drama. Mirageman pode ser considerado o melhor filme de 2007 que pouca gente viu, hipnótico do começo ao fim. 

Aerton Martins (APJCC- 2011)

 

 Serviço: Coisas de Cinema apresenta “Mirageman”, de Ernesto Días Espinoza. Chile. 90 min.
Data: 19 de janeiro (quarta-feira) Horário: 19h30
Local: Espaço Cultural Coisas de Negro – Av. Lopo de Castro (antiga Cristovão Colombo), 1081/ Icoaraci
Realização: Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC) e Espaço Cultural Coisas de Negro. ENTRADA FRANCA. Informações: 81522588 ou 88906669.

[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]
Meu Perfil
BRASIL, Norte, BELEM, Homem, de 26 a 35 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Música, Cinema
MSN - jonnysier@hotmail.com