Querido mês de novembro

Que tudo vá para o inferno! Nada de linhas frias e porcas sobre as duas últimas porradas que peguei de cinema nas duas últimas semanas. “Bastardos Inglórios” é um dos filmes do século. “Aquele querido mês de agosto”- filme que carrega uma estrutura narrativa colossal e majestosa - do cineasta português Miguel Gomes, está em cartaz no Cine Líbero Luxardo do Centur, e só fica até este domingo, dia 15. “Aquele querido mês de agosto” e “Bastardos Inglórios” são pepitas que Belém recebeu este mês. O primeiro é cinema feito por gente grande e o segundo é cinema de gente que pensa grande. Quem perdeu os dois na telona já tem seguramente lugar reservado no inferno, e uma marca lindinha na testa que diz: sou um belo otário. Quem me dera se todos os meses fossem assim, como foi este querido mês de novembro, ai ai.
Te vira Marco!

O novo filme do Tarantino entrou em apenas oito salas na Bahia. Que miséria! A empresa Moviecom, que comanda as salas comerciais em Belém, estava divulgando o filme “Bastardos Inglórios” para entrar em cartaz dia nove desse mês. Não entrou. Exijo como cinéfilo que a obra venha para nossa cidade. Não quero saber se anda chovendo hambúrguer. Quero ver na telona filme de gente grande. Não quero sentir cócegas nos olhos com os traçados da Disney-Pixar. Quero sentir minha vista ardendo, como senti com as obras de Gray e Mann. Não quero saber de dramalhões ocos, nem de invasão alienígena. “Lua Nova”? Nem bosta deve ser tão ruim. Esse ano tivemos duas belas obras do Clint, “Amantes” e “Inimigos Públicos”, só falta o Tarantino aparecer, assim a festa pode terminar em grande estilo. Te vira Marco!
Amantes
Percurso dolorido

Leonard é um rapaz um tanto perdido na vida, que foi morar na casa dos pais após sofrer uma decepção amorosa. Tem uma mãe protetora e um pai preocupado com seu futuro. Na vida de Leonard entram duas mulheres, Sandra e Michelle. Ele transa com Sandra mas é loucamente apaixonado por sua vizinha, Michelle. Vemos o mundo dele desabar quando descobrimos que Michelle tem um namorado. Leonard fica inquieto, e desconta sua tristeza descascando o papel do poste. A cena é o desfecho de um balé luminoso e brilhantemente arquitetado por James Gray segundos antes: O casal dança em uma boate, Leonard abraça Michelle com toda força, como se tudo aquilo fosse seu mundo, sua parceira recebe um telefonema e o abandona na pista. Leonard ama Michelle e abre seu coração duas vezes: no terraço do prédio, numa coreografia cinematográfica precisa e sóbria, onde os dois são enquadrados pelas janelas e portas da casinha, e a outra no mesmo local, uma cena mais fechada, que culmina na explosão carnal mais sublime da atualidade no cinema. Não interessa saber se o ciclo dramático será fechado, o que vale é sentir a intensidade do personagem, vivido magistralmente pelo ator Joaquim Phoenix.

Gray declarou recentemente que estava procurando um modo de fazer um filme que apelasse inteiramente às emoções, que pilares intelectuais ou convenções do gênero passassem longe. Leonard não é um típico Don Juan, é um rapaz com andar desengonçado, que vê em uma mulher viciada em drogas o caminho para sua libertação. O cinema de Gray é silencioso e silencia. A sequência do pátio no prédio, onde o protagonista espera sua amada para fugir, é tão bela que assusta pela sua simplicidade, a duração é curta mas parece que dura uma eternidade. A câmera de Gray é astuta, denuncia a emoção, procura no olhar sua força. Leonard trocando olhares com sua mãe e Sandra olhando para Leonard são imagens que dizem mais do que toda filmografia de Bertolucci, Gus Van Sant e Lars Von Trier dizem juntas. No 'clímax' do filme nosso protagonista olha para nós, como se quisesse dizer que voltaria a fazer o mesmo caminho que fez na monstruosa e linda abertura. No fim salta uma impressão, que a vida nunca se fecha, é um percurso constante e dolorido, e James Gray soube como poucos enquadrá-lo dentro da sétima-arte.
Quero o novo James Gray

Uma sala alternativa traz o que anda acontecendo de novo no cinema atual, e peita as salas direcionadas ao grande público. E precisa ser regular. O finado Circuito Cinearte por muito tempo fez o papel de quadrante alternativo em nossa cidade. Apesar de não me deliciar tanto com o blefe chamado Dogville, foi o Cinearte que trouxe a incensada obra de Lars Von Trier. Deu oportunidade aos belenenses de terem contato com a obra. O circuito trouxe também Quero ser John Malkovich, Celebridades, Igual a Tudo na vida, Embriagado de Amor e muitos outros. Para cada três filmes pipocas, afinal o empresário precisa movimentar seu caixa, o Cinearte vinha com uma obra "rejeitada”. Filmes que fazem qualquer dono de sala exibidora pensar no bolso vazio. Quem saía de casa tinha um cardápio variado, um pouco, mas tinha. Quem não queria saborear a pipoca atual poderia assistir a outra opção, a alternativa. O Cine estação não é sala alternativa. O Cine Estação deveria trocar de nome: Cine Indigente. É um espaço que sofre, pois recebe esmola do Teatro, de quando em quando alguma coisa é exibida por lá. Já trocaram tanto de horário que a coisa anda feia. Hoje acho que não passa mais de um filme por mês. Foi uma tentativa, um arremedo, uma faísca de chegar perto de uma sala alternativa, mas não deu. Torço para que as coisas mudem.
Analisando friamente, os cineclubes são espaços para quem quer fugir das grandes salas. É uma alternativa? Sim. Mas não é um espaço alternativo, o cineclube estimula o público a compreender, ver, refletir e debater o cinema. Em nossa cidade existem muitos cineclubes, comandados pelos universitários, artistas, pela ACCPA e APJCC, e isso é sublime. Vejo que a coisa anda crescendo cada vez mais. Enquanto isso os espaços alternativos vão sumindo. O Moviecomarte pode ser considerado como um espaço alternativo doente, apesar de ter detestado a maioria dos filmes que vi lá é um local que fura a panaquice exibida nas salas vizinhas. Falar do Cine Olympia é chutar cachorro morto e feio (me refiro às sessões regulares da semana e não ao cineclube que acontece aos domingos quinzenalmente), ali não tem jeito. Recebi esta semana um email que continha alguns textos do pessoal da APJCC (da qual participo) e também da ACCPA. Parece que o fato do projetor do Líbero ter quebrado- e com isso todas as sessões e projetos foram temporariamente cancelados-, fez com que a turma dos velhos e dos jovens trocassem algumas alfinetadas. Tenho apenas uma coisa a dizer sobre o quiprocó: por favor Cine Líbero Luxardo do Centur, volte logo, preciso pensar na esperança de ver o novo James Gray.
Mostra Jean Rollin – “O Bretch dos Vampiros”

Serão exibidos dois títulos, em DVD com legenda em português, do cineasta francês Jean Rollin. A mostra em Belém será realizada com a colaboração do crítico Adolfo Gomes e o grupo “Fellinianos”, como comemoração aos dois anos de atividades deste grupo. Programação:
CINE LÍBERO LUXARDO DO CENTUR E APJCC APRESENTAM SESSÃO MALDITA: MOSTRA JEAN ROLLIN – “O BRETCH DOS VAMPIROS” DIAS 12 E 26 DE SETEMBRO DE 2009, ÀS 21H30 ENTRADA FRANCA
Dia 12/09/2009 Lábios de sangue (Lèvres de sang, França, 1975) Direção: Jean Rollin Duração: 88 minutos Legendas em português Elenco: Jean-Loup Philippe, Annie Belle, Nathalie Perrey e Martine Grimaud Sinopse: Desde que seu pai morreu, Frederick tem dificuldades em lembrar-se de sua infância. Até que a imagem de um castelo desperta estranhas recordações de um passado obscuro. A partir daí, há uma busca incessante de Frederick para reconstruir esse passado. Considerado um dos filmes mais líricos de Jean Rollin. Dia 26/09/2009 A prometida de Drácula (La fiancée de Dracula, França, 2002) Direção: Jean Rollin Duração: 91 minutos Legendas em português Elenco: Cyrille Iste, Jacques Orth, Thomas Smith e Sandrine Thoquet Sinopse - Penúltimo filme dirigido por Jean Rollin, mostra a busca de um professor pelos descendentes de Drácula. Uma pista acaba levando-o a uma mansão cheia de estranhas freiras, conhecidas como a "Ordem das Virgens Brancas".
Cinema mesmo

Um garoto agachado olha atento para um grilo, que descansa em um pé de arroz. Com uma panorâmica e um dedilhado de piano cortante, o filme abrirá o mundo bagunçado da polícia local. O garoto se levanta, olha para a esquerda e para a direita, um pequeno trator caindo aos pedaços chega trazendo o inspetor Park. Crianças brincam no arrozal com os objetos da vítima: uma mulher amarrada, encontrada dentro de uma valeta. O ano é 1986, na Coréia. Os coreanos tinham o toque de recolher, e começaram a temer com uma série de assassinatos. A obra-prima “Memórias de um Assassino”, de 2003, é baseada em uma história real. Park é um policial bruto, um completo idiota, utiliza métodos nada racionais e tem como ajudante um rapaz que vive espancando os suspeitos.
E a mise-en-scène do diretor é crucial: ao fundo na delegacia um policial dorme, enquanto um dos suspeitos ajuda Park a manusear a máquina de escrever. Park ganha a ajuda de um detetive vindo de Seul, Sun Yong. Yong é o oposto de Park, é sereno, calado e Inteligente. Nas primeiras cenas é raro ele dividir o mesmo plano com Park, Yong sempre fica ao fundo, observando, negando o modo como Park opera sua investigação. Os dois sofrem correndo atrás do serial killer, dia após dia. Nasce uma espécie de competição. Não há desfecho da trama. Não há círculos fechados, mas isso é o que menos importa. “Memórias de um Assassino” é sobre dois detetives, que se consomem e se transformam ao longo da investigação, é sobre a natureza humana. Um filme grandioso pelos pequenos ‘frutos’. Tudo que o cineasta Bong Joon-Ho filma é força, é vida, é arte, um sopro artístico que Bernardo Bertolucci ainda não conseguiu, e nem vai. O cinema nacional ainda não se decidiu se é publicidade ou tv. A Coréia já bateu seu martelo, através de filmes como “Memórias de um Assassino”, que seu cinema deve ser cinema mesmo.
Memórias de um Assassino no Cine CCBEU

“Memórias de um Assassino” é um filme sublime. O que importa na obra é o que está na periferia, e não no centro. O filme narra o ‘choque’ entre dois policias que apenas tem em comum a profissão. Eles sofrem o diabo atrás de um serial killer. É filme de gênero e coreano. Carrega uma infinita visão poética pelas mãos do talentoso diretor Bong Joon-Ho. Um filme de beleza única, que não procura estudar bulhufas. Uma caçada que resulta em um dos mais belos embates que o cinema já nos deu. Bong Joon-Ho é cineasta de verdade e possibilitou tamanha criação nas telas. O filme abre com uma criança pegando grilos em uma plantação de arroz. A cena adianta a força que o filme inteiro vai carregar. Ficar indiferente depois de assistir a obra é dizer não para a sétima-arte.
Serviço:
CINE CCBEU APRESENTA:
“Memórias de um Assassino”, de Bong Joon-Ho.
Data: 03/09. Às 18h30. No Cine-Teatro do CCBEU (Padre Eutíquio, 1309)
ENTRADA FRANCA
Realização: CCBEU
Parceria : APJCC
Bunny Lake Desapareceu na próxima maldita
Otto Preminger é austríaco e se tornou um dos grandes diretores na poderosa Hollywood. Tinha fama de ser um homem descontrolado no set, chegando a humilhar os atores e esbofetear as atrizes com quem trabalhou. “Laura” e “Anatomia de Um Crime” são seus trabalhos mais citados pela crítica. “Laura” abriu ao diretor um grande caminho nos Estados Unidos, foi sucesso de crítica e público e lhe deu carta branca para que ele criasse uma das grandes e sublimes filmografia da Hollywood clássica. Deixou obras em todos os gêneros cinematográficos. Tinha apreço pelos temas que sublinhavam os desvios morais e conflitos comportamentais. A obra “Bunny Lake Desapareceu”, de 1965, foi apedrejada pela crítica na época de seu lançamento e colocada no forno. O filme narra a história de uma mãe desesperada, em busca de sua filha desaparecida. O filme para muitos é o patinho feio dentro da vasta filmografia do diretor.
“Bunny Lake Desapareceu” é exuberante em toda sua operação. A câmera elegante de Preminger encontra o sentido cinematográfico e domina os espaços. Cada plano na obra mobiliza certa urgência imagética, nos primeiros segundos podemos sentir o cheiro de cada peça da casa, os objetos na parede, a cama, o lençol. A trama psicológica é invadida por uma vitrine sombria, liberada por uma mise-en-scène latente e perturbadora. Sequências belíssimas compõem o jogo de Otto Preminger: a cena da loja das bonecas, o desfecho delirante e pesado. É em cada travelling, em cada plano, e em cada passo emocional dado pelos personagens, que iremos encontrar a força de “Bunny Lake Desapareceu”, elegantemente traçada por um dos grandes filhos de Hollywood.
Serviço:
CINE LÍBERO LUXARDO DO CENTUR E APJCC APRESENTAM
SESSÃO MALDITA: “BUNNY LAKE DESAPARECEU”
DIREÇÃO: OTTO PREMINGER
DIA: 29/08/2009, ÀS 21H 30. ENTRADA FRANCA
Michael Mann

É inegável o poder que Michael Mann carrega em sua câmera. A objetiva nas mãos deste grande cineasta se transforma em emoção cristalina, e em Inimigos Públicos a coisa não é diferente. Mann não acredita em mentiras, procura o real em seu maquinário de alta definição. Nada de reconstituição. Aliás, a única coisa que o diretor reconstitui é seu cinema, sua lógica, sua operação palpável e arrebatadora. A trama gira em torno de John Dillinger, assaltante de bancos que desafia o FBI. Existe um controle absurdo sobre todas as camadas. A perseguição no bosque, a execução do protagonista, Dillinger e Purvis se encarando na cela, imagens controladas e respeitadas por um artista. Inimigos Públicos não é um filme de gângster moderno, não é uma linha baseada em fatos, a obra apenas capta a força e a essência de apenas um homem; Michael Mann.
Dia do rock

Uma das primeiras coisas do rock que gostei quando garoto foi 'Maybellene', de Chuck Berry. À época não sabia quem era Beatles, nem o que era o tal de rock and roll. Fui saber que John Lennon era dos Beatles muito mais tarde. Sua última entrevista naquele famoso compacto era a primeira coisa que aparecia quando eu abria o armário com os vinis de meu tio. Daí por diante a curiosidade me levou. Descobri que existia um sublime grupo chamado The Who e que umas das primeiras e subestimadas óperas rock era do grande grupo The Kinks; “Arhur – Or The Decline and Fall of The British Empire”. Descobri através do meu irmão mais velho que existia vida inteligente no rock progressivo.

Não suportava - e não suporto- a babaquice de contrapor o punk e o progressivo. Damned, The Buzzycocks e Dead Boys, se dão muito bem com King Crimson, Yes e Van Der Graaf Generator , no meu aparelho. Hoje temos uma penca de bandas ótimas espalhadas pelo Brasil. E são elas que ainda levantam a bandeira deste grande gênero. Hoje comemora-se o Dia do Rock, e nada melhor prestar atenção no que anda rolando no cenário nacional. É só cavar um pouco que coisa boa se acha. Ou será que embustes como Capital Inicial, CPM 22 e Fresno ainda dominarão o mercado? ...Enquanto isso em Belém

A cena em Belém só não balança com mais força por culpa da gente. Nossa cidade é ávida por produtos reciclados, covers de covers, tudo um saco. É claro que ouvir um grupo fazendo cover não é o fim do mundo. The Beatles, The Who, Pink Floyd, Sex Pistols, The Stooges, nesse mundo chamado rock, todas as bandas foram cover algum dia, ou já fizeram sua singela homenagem. Mas na hora de ouvir um grupo autoral, a maioria sai de fininho, sem fazer alarde. Temos Turbo , Johnny Rockstar, Stereoscope, La Pupuña e uma batelada de bandas interessantes, mas até quando? Madame Satan dobrou a esquina e foi ver o sol brilhar melhor lá fora. Vinil Laranja participou recentemente de um festival fora do Brasil, e não ficaria surpreso se uma grande gravadora os chamasse.

Não me entendam errado, não estou querendo dizer que existe desprezo por parte de alguns músicos de nossa cidade. Todo mundo sabe da falta de apoio, seja do público, da iniciativa privada ou do governo. Faz tempo que nossa terra não carrega esse frescor, essa pluralidade musical, isso se algum dia carregou. Se não existe público os espaços irão diminuir. Tenho minha parcela de culpa. No último dia 09, Suzana Flag, Johnny Rockstar e La Pupuña, tocaram no Bar Palafita, e eu não fui. Como a banda que surgiu em Castanhal vai tocar todas às quintas desse mês no espaço, com grupos convidados, ainda tenho tempo de me redimir. Viva o Rock!
Vale ouvir:
- Video Hits - “Registro Sonoro Oficial”- 2001 (Rio Grande do Sul)
-The River Raid – “The River Raid”- 2007 (Recife)
- Suzana Flag – “Fanzine”- 2002 (Belém)
- Pata de Elefante- “Pata de Elefante”- 2004 (Rio Grande do Sul)
- MQN- “Hellburst”- 2004 ( Goiânia)
- The Feitos- “Na Cabeça da Chorona”- 2007 (Rio de Janeiro)
- Macaco Bong- “EP- 2005/2009” (Cuiabá)
- Pedra- “Pedra”- 2006 (SP)
- Johny Rockstar- “Demo e Ao vivo” -2008/2009 (Belém)
- Shakemakrs - "Shakemakrs-Demo" (Não sei)
Dança dos anjos

Michael Jackson, artista precoce. Começou a cantar e compor cedo. Levava pancada do pai e não sabia o que significava a palavra infância. Seu pai o chamava de ‘nariz de batata’, não foi à toa que o rapaz ficou louco. Deixou um discaço chamado “Off The Wall”, que faz até pedra se mexer. Foi acusado de abusar menores em sua mansão. Não havia provas. O cara foi inocentado. Quando eu era criança, lembro-me de minha mãe soltando lágrimas ouvindo “One Day in Your Life”, e eu chorava porque via ela chorando. Os anjos agora estão felizes e dançando. Fique em paz rei do pop.
Notas
O milagre

“Um olhar a cada dia” é um milagre. A jornada do diretor, vivido pelo ator Harvey Keitel, em busca dos rolos perdidos de um dos primeiros filmes dos irmãos Manakis - pioneiros do cinema na Grécia- é de uma sensibilidade grandiosa. Herdeiro do cinema contemplativo do gênio Andrei Tarkovski, o grego Theodoro Angelopoulos parece estar contido na alma do personagem, que é tomado pela obsessão, esta movida pela paixão cinematográfica. O personagem central pula de país em país para tentar encontrar os fragmentos da obra perdida, mas também busca sua vida. Tamanha emoção é sentida em cada segundo na tela: nas ruas escuras, na dança no nevoeiro, no trem partindo, nos longos e apaixonados planos-sequências (a cena do público com os guarda-chuvas é majestosa). “Um olhar a cada dia” é um grande olhar, uma pena que poucas pessoas sintam este grande ardor, o de um cineasta essencialmente preocupado com sua arte e seu mundo. Theo Angelopoulos, obrigado.
Filmes

“Exterminador do Futuro” é inadequado, ruinoso. Não se adequa ao blockbuster porque não diverte. Refiro-me a franquia, já que todos os filmes vestem a mesma roupa, fazem a mesma careta. Não vi o terceiro filme, pulei para o quarto. Talvez a presença de Christian Bale neste novo tivesse chamado minha atenção. Bale é a pior coisa do filme, além de atuar como um poste o ator carrega a voz do personagem que lhe deu sua glória: o homem-morcego. Ah, em Batman funciona que é uma beleza, o personagem pede esta urgência, algumas traquinagens vocais, mas em “Exterminador do Futuro: A Salvação” não desce. O filme também abre alas para o segundo “Transformers”. É cada andróide gigantesco que garante a propaganda da continuação do vídeo-game dirigido pelo abobalhado Michael Bay. Uma surpresa foi “Star Trek”. É divertido, sóbrio e bem conduzido. J.J. Abrams sabe como tratar um blockbuster. É por culpa de caras como Abrams que dá gosto de ir hoje aos cinemas ver filmes enlatados (sempre quis dizer isso). Tem muito enlatado por aí que respeito mais do que muita obra perneta, vendida como “arte”. Abram os olhos.
My Best Friend’s Birthday

Esta semana vi os fragmentos do que seria o primeiro filme de Quentin Tarantino, “My Best friend’s birthday, de 1987. Não existe um fio-condutor. Clarence, vivido pelo Tarantino, quer festejar o aniversário de seu melhor amigo. Um pretexto para o grande diretor cuspir a verborragia contida em sua filmografia e seus fetiches: falar sobre cinema, pés femininos, fazer cinema, música. Muita gente vende a obra como o primeiro filme do autor de “Cães de Aluguel”. Que traquinagem”! A questão é que diverte. “Marlon Brando é um grande ator, mas fez muito filmes de merda”, atira Clarence. “Era louco para trabalhar no departamento de discos no shopping, mas me colocaram para o lado de calçados femininos, acabei tendo fetiches por pés”...Tem até uma luta de kung-fu com um negro imitando Bruce Lee e um travelling no quarto de Clarence, que mostra os pôsteres de cinema na parede. Esse Tarantino! E falando nele, sábado agora, 20/06, tem maldita com “New York Ripper” , do grande Lucio Fulci. Tarantino foi o responsável pela restauração das obras do diretor italiano. “New York Ripper” é o tipo de filme que os críticos adoram massacrar: “ai, é uma vitrine da misoginia”, “ai, clamo por mensagens em um filme”. Balela! É um belo giallo. Fulci é Fulci. Apareçam. Serviço: CINE LÍBERO LUXARDO DO CENTUR E APJCC APRESENTAM: SESSÃO MALDITA NEW YORK RIPPER. DIR: LUCIO FULCI. 93MIN. DATA: 20/06/09. ÀS 21H30. ENTRADA FRANCA
E o horror?

O gênero de horror foi o último que descobri. Resolvi à época compensar e ver tudo quanto é título, seja sobre vampiros, maníacos, fantasmas, bruxas, zumbis. Até hoje não me esqueço de filmes como “A Vingança do Espantalho”, “Armário do Diabo”, “A Maldição dos Mortos Vivos”, “A Casa que Pingava Sangue”, “O Bebê de Rosemary” e “Dia dos Mortos”(esse ninguém esquece, um dos melhores do diretor). Só o trailler do filme do grande George Romero, com a voz do narrador, provoca arrepios. O dedilhado do mestre Rick Wakeman na trilha sonora da série “Creepshow” era coisa de louco, até hoje me divirto. O segmento do 'tapete assassino do lago' era um dos meus preferidos. Hoje não daria nem um centavo para muitos filmes que tiraram meu sono quando pequeno. Acho graça de muitos, durmo com outros, ou indico alguns para os menos exigentes. Admito que não tinha muita paciência para os monstros sagrados dos filmes da Hammer, hoje aprecio alguns. Depois veio a finada 'Dado Grupos' no Brasil, uma dessas distribuidoras de fundo de quintal, que lançou o primeiro Dario Argento e alguns filmes do Lucio Fulci e títulos de outros cineastas italianos. Hoje é fácil ver a filmografia completa desses dois gigantes, mas naquela época soltava rojões quando enxergava os nomes deles brilhando nas prateleiras. Hoje os tutores do gênero não passam de engodos. Tem até diretor inerte entrando no terreno e enganando muita gente. Tá tudo um saco. Tragam-me um eparema.
Forty Guns de Samuel Fuller (1957)
"O amor é uma guerra fácil de começar e difícil de perdurar"

É com sua própria e exata descrição sobre o sentimento mais decantado do mundo, o amor, que as obras do cineasta americano irão encontrar sua morada. Mais claramente para onde esse amor se lança: para a ética que cada personagem faz para si e para a violência – não a que determina a pura ação e que marca personagens , mas a violência utilizada como elemento de expressão do universo particular do diretor. Em “Dragões da Violência”, vemos um western radical, que quebra todos os códigos cravados pelo western americano clássico. Samuel Fuller educou-se, aos 17 anos, em tablóides, foi repórter policial, autor de romances sensacionalistas, não à toa suas obras são repletas de marginais, tudo é escuro e pesado no terreno deste cineasta mordaz.
O cineasta aprendeu em sua jornada quando jovem que a linha que separa as pessoas em boas e más não existe. O ato moral é imoral. O ato imoral é moral. Qualquer ser humano possui seu código de ética. Não determinar se este ou aquele personagem está certo é um caminho por qual Fuller opta em suas obras. Nada mais justo, já que o cinema não nasceu para julgar, nasceu para 'mostrar'. O discurso do cineasta é encantador, inebriante, tudo é aceito neste universo mas o próprio cineasta faz questão de destruir os diálogos de seus personagens. Não se pode acreditar no que as palavras dizem, pois Fuller faz questão de gritar: “o poder da câmera é como uma fonte em negrito”. A câmera é o instrumento da expressão desta arte, assim como a pena e a palavra dominam a literatura, o pincel e a tinta tomam conta da pintura, a câmera para o cinema não pode servir como adorno. Fuller acreditava e demonstrava esse poder da imagem, que fez dele um 'eleito' em uma arte que o escolheu. O cineasta não escolhe o cinema como sua casa, a sétima-arte é que trata de eleger seus herdeiros.

A abertura de “Dragões da Violência” mostra tamanho ardor: um long-shot( plano geral) permite-nos observar, no centro do plano, figuras sentadas em uma espécie de diligência. No chão, o reflexo das nuvens se aproximam. O plano se fecha e somos apresentados a três personagens. Em meio a panorâmicas, travellings, ou na combinação destes dois elementos determinantes do cinema, somos apresentados aos 'quarenta cavaleiros' do título original: “Forty Guns”, ou 'quarenta armas'. Vemos um código sendo quebrado: quem comanda a cavalaria é uma mulher.

Uma cena entre a 'armeira' e Wes aponta para diversos pilares recorrentes na filmografia do diretor. Wes, após ter celebrado o símbolo máximo de união, o casamento, leva um tiro pelas costas. A seqüência do assassinato é realizada com o uso dos agressivos 'Faux Raccord' ( Falso Raccord- onde o corte da cena é fora de continuidade, e este jogo é muito usado nesta obra). Vemos outro código dos western sendo violado, aqui se destrói para construir, anos depois uma turma da Itália lutaria nesse terreno, fazendo filmes onde a 'sujeira' dos personagens é um elemento determinante. Importante destacar outra cena onde Fuller destaca a violência e o amor, uma das cenas mais grandiosas e lindas do cinema: Wes, com o cano da arma, olhando para sua amada, a 'armeira'. Observamos a cena com o uso funcional da câmera subjetiva- observamos o que Wes observa. Nosso olhar é o dele, no plano. A cena termina com um beijo entre os dois.

“Dragões da Violência” lança um tom baixo na fotografia. Lembrando em determinados momentos a escola alemã (Fuller não pertencia a nenhuma escola, criou a 'sua') de cinema expressionista. Sombras se jogam entre os personagens. Duas cenas memoráveis acontecem com os casais. Deitados, a armeira e Wes, unidos, abraçados, são 'cruzados' pela sombra de duas armas. Griff e Jessica também são cruzados pelas sombras. Samuel Fuller lança, novamente, sua visão de que o amor contém a morte, a violência.
Muito mais que um campo de batalha de emoções, as obras de Samuel Fuller mostram o que muitos cineastas se esquecem de mostrar: que o cinema é uma guerra de pura manifestação artística.
Aerton Martins - APJCC
Nota do Editor: Texto para o Ciclo Samuel Fuller no finado Cinema na Casa, em julho de 2008. Notem que este blogueiro já comentou muito sobre o autor do também sublime " Casa de Bambu", 1955. Quem manda ele ser um dos gênios desta grande arte.
Cinema em Belém

Como eu gostaria de comentar mais sobre a programação de Belém. Mas seria tão chato. Chato porque nossa cidade oscila muito. Passamos muito tempo comendo apenas pão bolorento e bebendo água suja. Belém melhorou, admito, mas ainda enxergo a imagem de um transeunte atirando moedas ao indigente na calçada. Parece que o mês abençoado será maio. Temos o ciclo do grande Alain Resnais no Cine Olympia, infelizmente as cópias serão em Dvd, não em película, mas já é alguma coisa ver Resnais na telona. Quem foi assistir o filme de abertura na última terça-feira, a porrada “Hiroshima Mon Amour”, ficou com vontade de socar a parede, como eu. O filme começaria às 18h30 mas até às 18h o pacote com os filmes do Rio de Janeiro não havia sido entregue pelos correios. Sessão cancelada! Paciência.

O ciclo do celestial Robert Bresson termina amanhã, no IAP, às 9hs com “Le diable probablemente” e às 15hs com “L’argent”. Corram! Já vi inúmeras vezes a obra-prima “Pickpocket”, mas ver a obra em uma tela maior foi uma revelação. Bresson trabalha a camada sonora em seus filmes como poucos, ele mesmo argumenta:“o olho é muito preguiçoso, se contenta em receber, enquanto o ouvido está sempre mais atento". Luchino Visconti, um dos gênios da sétima-arte, estará com dois filmes no Cine Líbero Luxardo do Centur este mês: “O Inocente” e “Morte em Veneza”. “O Sol”, do grande Aleksandr Sokurov, entra em cartaz nesta sexta-feira no Moviecom Arte, projeto que conta com a parceria da ACCPA.

No cineclube da Aliança Francesa o cineasta Jean Vigo será o homenageado do mês. E para finalizar, uma ótima notícia, o cineclube do CCBEU voltará com suas atividades, em parceria com a APJCC, sob a batuta do crítico Miguel Haoni. O cineclube dará as boas-vindas ao público paraense com a linda trilogia de Francis Ford Coppola: “O Poderoso Chefão”. Não é todo mês que Belém respira cinema assim, aproveitem. Ah, maio também é o mês das mães. MINHA MÃE E AMIGA, TE AMO.
Nota: A programação dos espaços exibidores pode ser conferida nos links aí do lado, nos sites da APJCC, ACCPA e Cine Líbero Luxardo do Centur.
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