Vale a pena ver de novo?
Homenagem ao dia do centenário do Cine Olympia


Literatura e Cinema são artes que sempre caminharam juntas – muito se fala da influência de uma sobre a outra, da contribuição de uma para a outra. Esta oficina pretende abordar essa relação já centenária, porém sem recorrer necessariamente à adaptação cinematográfica propriamente dita. O foco, aqui, estará em influências e contribuições nem sempre tão óbvias para o público. Qual a relação entre D. Quixote de Cervantes e o Carlitos de Chaplin? No que se assemelham os personagens violentos de Dostoiévski e os policiais desesperados de Michael Mann? Ou ainda, o que Virgina Woolf tem a ver com Alain Resnais? A Oficina Cinema e Literatura se propõe a reflexão de todas essas relações possíveis, buscando uma compreensão sincera da essência de cada uma dessas artes que tanto ofereceram (e oferecem) à humanidade.
Felipe Cruz - APJCC- Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema- 2012
Serviço:
Oficina de Literatura e Cinema
Ministrante: Felipe Cruz
De 18 à 21 de Abril, quarta à sábado das 10h às 13h
no Sesc Boulevard - Av. Boulevard Castilho França, 522/523-Campina
INSCRIÇÕES GRATUITAS que já estão abertas no local onde ocorrerá a atividade, sendo efetuadas de terça a domingo no horário de 10h às19h.
Realização: APJCC e SESC Boulevard
Mais informações:
sescboulevard@gmail.com
Twitter: @sescboulevard
Twitter da APJCC
Facebook
Facebook Felipe Cruz
Para Drive
"Um ser humano de verdade. Um verdadeiro herói..."

Ruas. Múltiplas personalidades. Animais e suas vielas impenetráveis. O revestimento de escorpião em sua jaqueta sente o coração. Ele derrapa brutalmente e leva sua alma para fora dos trilhos quando conhece sua vizinha. Instauração latente e sem floreios. Olhares. A sétima-arte parteja olhos vagabundos. A cidade não existe. A cada passo, a jaqueta fica cada vez mais imunda. É a pureza de dois seres que se descobrem. E se, porventura, o amor existe, chega sempre contaminado e com o charme de uma lâmina afiada. A violência em amar. Ah, se os poetas e trogloditas soubessem. Amar requer violência. Pisotear impiedosamente um rosto no mesmo lugar do beijo arfante. Outrora ele esconde-se sob o olhar, a profunda conexão que os corpos sentem. A aparência da inexpressividade, o erotismo anulado, a doçura em não dizer. O homem desvenda a câmera, com o rosto ensangüentado, ciente que sua estrada, agora, deteriorada, não é mais a mesma. A inocência de uma mulher, a primeira aparição no elevador, espaço que carrega um poder sombrio e sereno entre os olhares; a mulher descobre a força embrutecida de um bicho. O vazio dos seres, o cheiro do afeto, o amor que cria o desespero e o espírito emudece. A fuga prepara o equilíbrio e é ela quem estabelece a ordem. É preciso coragem, para ser um ser humano de verdade, um verdadeiro herói...
Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami
Dissimulação para amar

Em "Cópia Fiel", do cineasta iraniano Abbas Kiarostami, a abertura dispõe a mesma piada duas vezes, quase que simultaneamente. Enquanto espera pelo autor James Miller para uma palestra, seu tradutor pede desculpas pelo atraso do escritor e diz que “ele não pode culpar o tráfego, pois está no andar de cima do hotel”. O público inquieto troca olhares, silêncio, e logo após, James entra na sala e lança a mesma brincadeira. Só que agora os convidados soltam gargalhadas. Dentro dos instantes iniciais do filme, Kiarostami já prepara o espectador para o sustento de sua valiosa armadura; a cópia pode se tornar tão forte quanto a original. A questão do filme é definida por James em plano médio, por trás de uma mesa de leitura. O escritor é inglês e está na Itália para lançar seu livro que questiona a autenticidade. Um encontro. Uma informação no papel. O encontro está armado. Ela é dona de uma galeria de antiguidades. Não existem obras originais na arte e na vida. Este é o argumento principal em "Cópia Fiel". Expõe, em seu monumental jogo, uma série de preocupações. Relações entre homem-mulher, presença e ausência, realidade e representação.

O casal ao longo de um dia conhece as múltiplas e transversais camadas de um relacionamento. Em uma cena indispensável, o escritor sai de quadro para atender a um telefonema, uma garçonete interfe na vida do casal: “ele deve ser um bom marido”. A mudança na direção da narrativa e das personagens dentro das personagens é segurada pelo frontalidade dos planos. Em poucos segundos, de desconhecidos passam para casais íntimos e que se conhecem há muito tempo. Pela primeira vez, os dois enfrentam a câmera de frente, a intimidade desarma qualquer espectador, os dois explodem em gestos negativos e troca de insultos que se prolongam na saída do bar. A narrativa é estabelecida com uma mise en scène rica em labirintos – o diretor não nos permite “olhar” para o enquadramento em sua totalidade, anula a profundidade e a periferia do quadro fílmico. Uma espécie de tédio latente se instaura nas bordas que cercam o casal. "Cópia Fiel" sugere a catarse das sensações, dos lamentos, da realidade. Versa sobre o amor. Sentimento dos mais decantados que a arte e a humanidade adoram explorar. Somos as personagens no momento da desconexão do que se passa na tela. A dissimulação para amar, seja um ser humano, a vida ou a arte, é o que faz sermos mais fiéis às nossas escolhas.
Super 8 , de J. J. Abrams
Arte é prazer

O cineasta J. J. Abrams declarou em uma entrevista que o objetivo de Super 8 era mais evocar a época de sua infância do que realizar uma homenagem aos filmes que o cineasta Steven Spielberg havia dirigido nos anos 70 e 80. Super 8 , de fato, carrega essa vibrante mistura do que o prodigioso diretor de E.T. O Extraterrestre pregou em sua jornada cinematográfica. J.J. Abrams é um colecionador de segredos, um mestre na arte de sonegar informações. Com a suavidade praticada por um mágico, o diretor completa: "Eu acredito em qualquer coisa que vai envolver o público e tornar a história mais eficaz.". No filme tudo se passa em uma pequena cidade no Ohio, em 1979. Crianças brincando com o cinema, o mistério da juventude por trás dos olhares de quatro amigos e seu processo de confeccionar um filme. O problema é que a câmera não grava uma imitação de filmes de zumbis, mas um evento com consequências incontroláveis. Super 8 narra a história desses amigos que se juntam para fazer um filme , com uma câmera “super 8″. Em uma emblemática e poderosa sequência, J.J Abrams começa a tecer sua melodia do olhar, ao mostrar o acidente com o trem desgovernado que acaba desencadeando uma série de ocorrências sobrenaturais.

O que domina no filme não é a dosagem filme-tributo, existe sim, este componente que referencia o sopro de aventura que os filmes oitentistas propagavam mobilizando a pura diversão, mas o que esvazia, em certa medida, estes contingentes tão requisitados no excesso da tecnologia na sétima-arte, é a inscrição pessoal e a mão firme que o diretor J. J. Abrams martela em sua duração. O cinema fascina e deve conter em toda sua maravilhosa engrenagem o poder do prazer. A arte em sua ampla divulgação do indivíduo e coletivo deve oferecer um mundo de diversão. J. J. Abrams captura em Super 8 o encanto do olhar, a inocência perdida. O que importa é a viagem e não o destino. No caso a viagem fascinante que os garotos fazem em meio a turbulência resultante do espetacular acidente. Muito curioso que justamente Super 8, uma descarada, e linda, mistura de filmes que marcaram uma geração, como Os Gonnies, Conta Comigo e Contatos Imediatos do Terceiro Grau, seja o filme mais autoral do diretor, que também é genitor de uma das séries mais comentadas dos últimos anos, Lost.

Super 8 é um filme que renega o sujeito ativo de sua trama, a criatura, para crivar realmente o que importa: a vida de um grupo de amigos pré-adolescentes. As questões são as mesmas, e são encontradas em inúmeras obras: a descoberta do amor, o adulto visto como ranzinza, a importância da amizade, o temor pelo desconhecido. O grande triunfo de filmes como Super 8, que se debruça na cartilha dos filmes de gênero, é justamente aproveitar e dosar ao máximo o que as convenções, ou clichês, podem lhe dar de novo, vide as obras marcantes do genial Quentin Tarantino. Em uma das cenas a criatura entra em um restaurante, não podemos vê-la, porque a placa da rua bloqueia seu ataque. Apesar dos segredos, dos mistérios que o diretor gosta de operar em torno se si, Super 8 é um claro tributo ao amor, onde a nostalgia vira sinônimo de vibração e a homenagem se dissolve dentro da poesia cinematográfica, feito pelas mãos de um artista que (re)conhece sua arte e sabe do que ela é capaz.
Aerton Martins (APJCC)* Texto originalmente publicado em dezembro de 2011, para a mostra melhores de 2011 - 4 anos da APJCC.
Tio Boonmee que pode recordar suas vidas passadas,
de Apichatpong Weerasethakul.
Sentido cinematográfico
Uma vaca amarrada. Um plano silencioso, escuro, é a única testemunha perante a ação inquieta deste animal que se movimenta, querendo ou não se soltar de uma corda, que a prende em uma árvore. Qualquer filme do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul, que felizmente adotou o apelido Joe, é um convite ao despertar cinematográfico. Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas é uma experiência recheada de sensações estranhas, no sentido de que a vida se transfigura em cada gesto, se reformula, é moldada a partir de uma ação iniciadora. Nada mais natural que a beleza em viver esteja presente na ruptura, em algumas estranhezas, na maioria das vezes sem respostas e em seus desdobramentos. Uma ação inicial em um filme do diretor tailandês pode ser um desabafo partindo de um monge que não está feliz no lugar que escolheu ou de uma princesa que questiona sua beleza, o tempo, ou as luzes de neon em um ambiente barulhento que invadem o mundo sereno por onde o filme todo respirou. Boonmee está lentamente morrendo de insuficiência renal, e as figuras de seu passado aparecem para ajudá-lo: o fantasma de sua mulher e seu filho, este reaparece como uma figura distorcida, não é mais um ser humano e sim um homem-macaco, e só enxerga as coisas na escuridão – firme e belíssima alusão ao “espectador fantasma” que somos, esperamos a vibração de outros seres em uma sala escura. A floresta que cerca Boonmee aparece como ameaçadora e misteriosa, assim como o mundo da sétima-arte e suas nuances.

Ela é repleta de criaturas. O filho do Boonmee se tornou um homem-macaco por ter acasalado com uma fantasma macaca. As barreiras no cinema do cineasta tailandês são inexistentes, o espectador viaja em meio aos personagens e os toma para si nessa magia do que a tela sempre permitiu, as espécies são transformadoras e transformadas, nascem e renascem; seja um feixe de luz que entra pela janela, os peixes em uma seqüência memorável da jornada na caverna. As almas podem viajar de um corpo para outro. O filme não é tanto sobre o que acontece com Boonmee nos últimos dias de sofrimento. É o contraste entre o verde e a cidade moderna, entre natureza e homem, passado e presente. Vida, morte e recomeço. A cena onde o espírito da esposa de Boonmme aparece gradativamente em uma trivial conversa no jantar é assustadora. Em uma seqüência, onde predomina fotografias estáticas, o protagonista narra um sonho sobre um futuro em que os viajantes do tempo são caçados e apagados quando sua imagem é projetada sobre uma tela. O diretor mais uma vez pensa sobre a arte de realizar filmes, descrevendo a morte como uma projeção fotográfica. Apichatpong Weerasethakul é um cineasta que desafia gêneros e estruturas narrativas, viveu em hospitais quando criança, conseguiu erigir um estilo próprio, em meio a profusão de canalhices que surgem a cada segundo nas telas deixa Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, obra purificadora e que aponta em seu caminho um forte sentido da operação cinematográfica.
Terrence Malick
Sensível evidência

Poucos cineastas primam pelo percurso da imagem como energia motriz em seus filmes. Das linhas rabiscadas - o que a convenção chama de roteiro - aos planos acabados, existe uma figura e cabe somente a ela dar vida ao que vemos na tela. Este funcionário, conhecido como diretor, ora visto como um mero intermediário de ideias, ora é tido como um artista sem amarras, capaz de criar e estimular a consciência do espectador. Cinema é arte e o cineasta deve respeitar a que escolheu. Terrence Malick tem um profundo amor pela natureza e seu ofício. Gosta de desafiar a tela como a vida desafia o ser humano. Seu primeiro filme, no Brasil batizado Terra de Ninguém, 1973, a fuga de um casal é o ponto de partida. O gestual dos protagonistas em junção com a natureza é a tônica da obra.

O casal vivido por Martin Sheen e Sisi Spacek quase não dizem. Terra de Ninguém se concentra na experiência deles frente aos valores de uma cultura que os pariu. Isento de dimensões explicativas. Não existem diálogos entre seus personagens, não no sentido de concluir uma linha dramática para compor a narrativa. São as imagens que dilatam as informações. Para Malick saber como dizer é tão importante e crucial quanto querer dizer. A mensagem está acuada entre os planos executados, escondida numa leve torção na câmera, no movimento sorrateiro de algum animal que entra do extracampo, ou que está ao lado de um ser humano, quase que obrigatoriamente em seus filmes; as ovelhas e a criança no desfecho de O Novo Mundo. Ver os gafanhotos nas folhagens de trigo em primeiro plano em Cinzas do Paraíso é sentir o sangue de um dos irmãos, que goteja lentamente sobre a folha do imenso campo verde, em A Árvore da Vida.

Não é de hoje que ele pensa cuidadosamente em seu rebento, cuida de um filme como uma mãe toma conta de sua cria. A abertura de Cinzas do Paraíso é tão silenciosa quanto à cena do menino enciumado com as mãos no bolso, em sua recente obra. Cinzas do Paraíso, seu segundo filme, estabelece Malick e seus códigos; cortes sincopados, pés que com a dança suavizam a mãe natureza, o solo, a família como unidade importante para a sobrevivência. É um doloroso romance sem amor. O choque entre o homem e o que o cerca, (ou aprisiona) é o que produz força em suas obras; a taça de vinho no fundo do lago em Cinzas do Paraíso, o céu visto pela primeira vez no desfecho de Terra de Ninguém, o amor nascido em meio as folhagens em O Novo Mundo, a contemplação do paraíso sendo substituída por um combate corpo a corpo em Além da Linha Vermelha. Terrence Malick é a sensível evidência da sétima-arte.
Ensina-me a fazer cinema

No Tempo das Diligências. 1939. Dir: John Ford.

Dragões da Violência. 1957. Dir. Samuel Fuller.

Onde Começa o Inferno. 1959. Dir. Howard Hawks.

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia. 1974. Dir. Sam Peckinpah

Três Homens em Conflito. 1966. Dir: Sergio Leone
Johnny guitar
Obra de um cínico

Uma mulher vestida de calça preta. Possui um laço verde ao redor do pescoço. No segundo andar ela brada com seus subalternos. Em poucos segundos a aspereza de sua ordem traga o lugar. Cheio de figuras masculinas, que ora estão na periferia do quadro fílmico, ora se apertam no enquadramento como ratos em um experimento. E quem os comanda é uma mulher. Nada de anormal se o filme em questão não pertencesse a um gênero predominado por homens; o western. Em Johnny Guitar, 1954, o maldito e poético Nicholas Ray, nos oferece um banquete de texturas. Destas saltam aos olhos subversões que louco nenhum foi capaz de instaurar nas telas, talvez outro insano chamado Samuel Fuller. Nicholas Ray era um doente, alcoólatra, seus filmes carregam feridas expostas. Suas obras refletem a sujeira e brutalidade do mundo. O filme Johnny Guitar é o maldito dos malditos. A poeira dos faroestes abandona o filme nos primeiros minutos e a maldição se estabelece; Johnny Guitar entra no saloon, enxerga três homens trabalhando, a cor verde sobre suas cabeças e do ambiente contrasta com a escuridão que adorna o espírito de Vienna.

As cores na obra possuem expressiva força dramática. Emma chega ao local de verde. Ela tem vergonha de gostar de Kid ou de Vienna? Nenhum passo é dado sem a ordem da imponente dona do estabelecimento. A tensão sexual, que é uma constante no filme, é liberada na grande sequência que apresenta Johnny, e culmina com a rival da protagonista chegando ao Saloon. O palco de tensões está aberto; Vienna, o músico Johnny, o dançarino Kid e a endiabrada Emma. É justificável a falta de zelo com a obra à época de seu lançamento. É um filme furioso, esquisito. Nicholas Ray deu ao público um faroeste onde os homens duelam com instrumentos musicais, dança, ou a raiva é extravasada com uma garrafa de uísque arremessada contra a parede. Um dos empregados de Vienna faz apenas menção que vai tirar a arma do coldre. “Um homem precisa apenas de uísque e mulher na vida, diz Johnny”. Vienna precisa de Kid e Johnny e o triângulo é majestosamente definido quando o músico senta ao fundo do quadro com sua viola, desfocado, e ela em uma conversa com Kid em primeiro plano.

Em toda filmografia de Ray existe um homem fraco, desbotado, criança, que vive fugindo de sua realidade, e que precisa de uma figura feminina para lhe dar cor. Em Party Girl,1958, Robert Taylor faz um advogado com uma deficiência na perna esquerda, conhece a dançarina Vicki Gaye, é ela quem aceita seu carinho, independente de sua condição física. Em Juventude Transviada, 1955, James Dean interpreta Jim Stark , um homem que busca apenas o olhar de sua família, encontra a figura da mãe na nova amiga, Judy, interpretada pela provocante Natalie Wood. Johnny não é diferente do protagonista de Juventude Transviada, ele quer fugir, não carrega arma, quando a utiliza explode sua violência repentina em um objeto no chão, mas o violeiro ainda deseja Vienna, e se joga aos pés de sua amada em uma das cenas mais lindas e bizarras do cinema; “minta pra mim, diz que me esperou todos esse anos...Diga que você morreria se eu não tivesse voltado, diga que você me ama como eu te amo”... A mulher que vivia de calças está com um vestido vermelho. Aos poucos seu comportamento masculino desaparece, dando lugar a uma mulher que só deseja se entregar ao seu homem. Os dois se beijam. Como ficar indiferente vendo Joan Crawford na soberba cena do piano, com um vestido branco elegante, cobrindo tudo até os pés? Johnny Guitar exibe uma exuberância artística que cegou, e ainda cega, os mais sensíveis. Tudo é berrante, belo e cínico. No fundo Nick Ray era o cineasta do cinismo. Rever Johnny Guitar é reverenciar a vida e a sétima-arte.
P.s.1- Revisão feita dias atrás em uma sessão no Líbero Luxardo. P.s. 2- Eu jurava que só nos filmes da sessão maldita a imbecilidade enforcava alguns incautos. Em uma simples cena, uma briga, algumas gargalhadas rolaram. (?!) P.s.3- Odilene, obrigado por ter me convidado para (re)ver o filme.
O Garoto de Liverpool
Amor perigoso

É fácil entender o amor, às vezes contestado por muitos fãs histéricos, que o líder dos Beatles nutria por Yoko Ono. Muitas biografias lançadas sobre John Lennon, suas letras tanto em seu grupo como em carreira solo, denunciavam um amargor. Tudo em função das mulheres que passaram por sua vida. Lennon queria ser amado? Uma delas foi Mimi, sua tia que o acolheu depois que sua mãe, Julia, o abandonou. Em o “O Garoto de Liverpool” temos como pilastra o jovem John, em meio a uma guerra emocional entre duas mulheres. Ele é inquieto, vive perambulando pelas ruas de Liverpool, não dá a mínima para os estudos e quer ser Elvis. Cinebiografias são cruéis e o realizador opta pelo caminho que mais lhe agrada. Nada anormal a não ser que o diretor deixe a impressão de que não esteve presente no processo. A diretora Sam Taylor-Wood oferece ao público um produto ralo, que se equipara a diversas cinebiografias, ruins e sem alma, onde existem apenas para justificar a existência do biografado. Ou será que é novidade o suposto caso entre Lennon e sua mãe? Ou que Lennon formou seu primeiro grupo, The Quarrymen, depois da morte de seu tio? A força de uma obra residirá na forma como o artista se colocará nela. Sam Taylor-Wood preferiu agradar a todos e ficar bem distante de seu filho. No saldo final temos um filme rasteiro e covarde. O amor que vemos depositado em “O Garoto de Liverpool” é perigoso. Não chega aos pés da mais latente falta de amor que Lennon sentia, por algumas de suas traquinagens musicais e pessoais.
Clube da luta no aniversário de um ano do coisas de cinema

Por Juliana Maués (APJCC)
Uma das reclamações mais freqüentes do público de cineclubes é que as iniciativas, em Belém, só acontecem no centro da cidade. Em 2010, o “Coisas de Cinema” surgiu como uma opção para o público do distrito de Icoaraci. Parceria entre a Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC) e o Espaço Cultural Coisas de Negro, o cineclube comemora um ano de atividades na próxima quarta, 16, e exibe o filme “Clube da Luta”, de David Fincher. A entrada, sempre, é franca. As sessões semanais às quartas-feiras foram desenvolvidas com o propósito de exibir filmes importantes para a história do cinema e obras desconhecidas pelo grande público, independentemente do país de origem, ano de produção e gênero. A proposta foi cumprida e projeções de cinema brasileiro, italiano, americano, coreano e chileno ganharam a tela do “Coisas”. Quanto aos gêneros, terror, drama, suspense e romance são só alguns dos que estiveram presentes.
Sessão de aniversário
Escolhido por Aerton Martins, produtor do "Coisas", o filme “Clube da Luta” será exibido na comemoração do 1º ano de atividade do cineclube. A obra do diretor David Fincher de 1999 traz um dos personagens mais emblemáticos dos últimos anos: Tyler Durden, vivido por Brad Pitt em um dos melhores papéis de sua carreira. A história acompanha Jack (Edward Norton), um executivo yuppie que trabalha como investigador de seguros e mora confortavelmente. A sua ansiedade o faz conviver com pessoas problemáticas, como a viciada Marla Singer (Helena Bonham Carter) e conhecer estranhos como Tyler Durden. Misterioso e cheios de idéias, Tyler apresenta a Jack um grupo secreto que se encontra para extravasar suas angústias e tensões através de violentos combates corporais.
Serviço:
Coisas de Cinema apresenta “Clube da Luta”, de David Fncher Data: 16 de março (quarta)Horário: 19h30Local: Espaço Cultural Coisas de Negro – Av. Lopo de Castro (antiga Cristovão Colombo), 1081/ IcoaraciEntrada franca!Realização: Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema e Espaço Cultural Coisas de NegroInformações: (91) 81522588 ou (91) 88906669

Bravura Indômita
A grandeza da alma

Em qualquer filme do mestre Howard Hawks podemos ver uma ardente beleza, sempre onde há algum cheiro do perigo. As amizades são perigosas, amar é perigoso e requer prática. Os irmãos Coen elevam a enésima potência essa assertiva e (re)criam uma obra forte, que busca na cumplicidade de indivíduos a desculpa para sua existência, coisa que também Hawks adora enfatizar em seus filmes. Bravura Indômita não é a refilmagem de um filme protagonizado por John Wayne, o filme dos Coen é um ser carrancudo, isento de sentimentalismos, mas inundado de sentimentos, traço palpável em cada imagem que salta aos olhos. Existe a Mattie, que não tem medo do escuro e encara qualquer um que queira se intrometer em seu caminho. O federal Rooster adora a companhia do álcool e é contratado pela garota valente, que está decidida em mandar bala no assassino de seu pai. Laboeuf é um ranger texano e também deseja encontrar o homem perigoso. O coração do filme pulsa na relação dos três. Não interessa se nossas expectativas são golpeadas quando o assassino aparece, o filme sustenta essa mudança de tom desde o início, uma oscilação selvagem. A vida carrega essa selvageria, uma mutação que leva o ser humano a buscar sua harmonia. Mattie leva palmadas do Ranger mas depois busca seu olhar na linda seqüência da cerca. Bravura Indômita é um filme verdadeiro e libera em cada belíssimo plano não só a força da direção madura dos Coen, mas também a grandeza que cada alma pode oferecer.
Coisas de cinema apresenta o aclamado filme chileno Mirageman

O contexto realista do filme Mirageman o consagrou como um dos melhores filmes sobre super-heróis já feitos. A obra carrega uma força brutal mostrando o protagonista Maco, que motivado pela recuperação de seu irmão, enfrenta o crime. Ele não tem super poderes e não carrega a presunção e inteligência dos heróis que pululam na maioria das obras, mas exala verdade. Maco é de ‘carne e osso’, combate o crime pegando ônibus e ajudando o caminhão de lixo. O diretor Espinoza exibe um raro controle de direção nas cenas de ação, prioriza a coreografia das lutas, demonstra um senso de equilíbrio supremo onde vibra humor, ação e drama. Mirageman pode ser considerado o melhor filme de 2007 que pouca gente viu, hipnótico do começo ao fim.
Aerton Martins (APJCC- 2011)
Serviço: Coisas de Cinema apresenta “Mirageman”, de Ernesto Días Espinoza. Chile. 90 min.
Data: 19 de janeiro (quarta-feira) Horário: 19h30
Local: Espaço Cultural Coisas de Negro – Av. Lopo de Castro (antiga Cristovão Colombo), 1081/ Icoaraci
Realização: Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC) e Espaço Cultural Coisas de Negro. ENTRADA FRANCA. Informações: 81522588 ou 88906669.
Poucos filmes

Mark e seu mundo nada vibrante. Lampejos e frieza em uma batalha onde o protagonista luta sozinho.
Invictus, Ilha do Medo, À Prova de Morte, O Segredo dos Seus Olhos, Tropa de Elite 2 e Vicio Frenético, estes são alguns títulos que eu vi nas telas em 2010. Vi poucos filmes. Perdi o filme do Woody Allen e do Almodovar, mas não faz tanta diferença. Fiquei fulo por não ter visto o filme do Eugene Green e o do Wes Anderson. À Prova de Morte chegou atrasado em Belém (e no país), mas valeu esperar, parecia que eu ainda não tinha visto a traquinagem soberba de Quentin Tarantino. Invictus é do gigante Clint Eastwood, ver uma obra de Clint na telona é respirar amor e cinema. Ilha do Medo tem suas atrocidades, mas suas virtudes também saltam aos olhos. Scorsese além de cineasta é um cinéfilo. A obra foi feita pelo cinéfilo Martin Scorsese, e isso já diz muita coisa. Tropa de Elite 2 é um filmaço de encher os olhos. Foi feito por um realizador brasileiro, é filme de gênero, é filme desafiador. Uma das gratas surpresas do ano. Mas Rede Social é a pepita que todo cinéfilo precisa. Nunca duvidei do talento do diretor de Clube da Luta, mas David Fincher sopra um vento mais forte na sétima-arte. Rede Social tem uma das aberturas mais lindas do ano, o protagonista enlouquecendo sua namorada, diálogos furiosos e brutais, o espelho da modernidade, o vazio, a potência da narrativa traçando o mundo gélido do criador do Facebook. A beleza da obra de Fincher não vem da (in)fidelidade dos fatos, nasce da grandeza das imagens e como ele opera seus “fantoches”no quadro fílmico. Posso dizer que terminei 2010 achando graça e com o coração feliz. Rede Social é o filme que eu precisava esse ano. Um 2011 sublime a todos os leitores.
Mostra Melhores da Década (3 anos de APJCC)

Programação:
14/12 (terça) "Menina de Ouro" de Clint Eastwood
15/12 (quarta) "Os Excêntricos Tenembaum" de Wes Anderson
16/12 (quinta) "Corpo Fechado" de M. Night Shyamalan
17/12 (sexta) "Embriagado de Amor" de Paul Thomas Anderson
18/12 (sábado) "Bastardos Inglórios" de Quentin Tarantino
19/12 (domingo) "Kill Bill Volume Único" de Quentin Tarantino
http://apjcc.blogspot.com/
Serviço:
de terça a domingo
(14 a 19 de dezembro)
às 15h00
no Cine Líbero Luxardo
Av. Gentil Bittencourt, 650, Térreo (esquina com Rui Barbosa)
ENTRADA FRANCA
Realiazação: APJCC e Cine Líbero Luxardo
Apoio: Cineclube Amazonas Douro e Sol Informática
Informações: 8813-1891
COISAS DE CINEMA APRESENTA A NOITE DOS MORTOS VIVOS,
DE GEORGE ROMERO

Notas
Vampiros, lobisomens, expressionismo alemão, seja o filme Barba Azul de Melies, é nocivo para a sétima-arte apontar o que e quem foi o precursor de um dos grandes e sublimes gêneros do cinema. Fica apenas um fato; o de que em 1968 um maluco com pouca grana fez um filme visceral, selvagem, que marcaria não só o gênero de horror mas toda uma geração de cineastas, que aprenderiam com ele que às vezes é salutar dar a cara a tapa e filmar o material em que se acredita; A Noite dos Mortos Vivos está aí, ainda vivo, forte, e deixa escapar a dimensão de um corajoso artista, chamado George Romero. Um dos grandes filmes dessa invenção que alguns bradam como sétima-arte.
Aerton Martins (APJCC 2010)
Serviço: Coisas de Cinema apresenta “A Noite dos Mortos Vivos”, de George Romero.
Data: 15 de Dezembro (quarta-feira) Horário: 19h30
Local: Espaço Cultural Coisas de Negro – Av. Lopo de Castro (antiga Cristovão Colombo), 1081/ Icoaraci
Realização: Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC) e Espaço Cultural Coisas de Negro. ENTRADA FRANCA. Informações: 81522588 ou 88906669.
|
||
![]() | ||
|
|
||
![]() | ||
![]() | ||
|
||