Forty Guns de Samuel Fuller (1957)

"O amor é uma guerra fácil de começar e difícil de perdurar"

É com sua própria e exata descrição sobre o sentimento mais decantado do mundo, o amor, que as obras do cineasta americano irão encontrar sua morada. Mais claramente para onde esse amor se lança: para a ética que cada personagem faz para si e para a violência – não a que determina a pura ação e que marca personagens , mas a violência utilizada como elemento de expressão do universo particular do diretor. Em “Dragões da Violência”, vemos um western radical, que quebra todos os códigos cravados pelo western americano clássico. Samuel Fuller educou-se, aos 17 anos, em tablóides, foi repórter policial, autor de romances sensacionalistas, não à toa suas obras são repletas de marginais, tudo é escuro e pesado no terreno deste cineasta mordaz.

O cineasta aprendeu em sua jornada quando jovem que a linha que separa as pessoas em boas e más não existe. O ato moral é imoral. O ato imoral é moral. Qualquer ser humano possui seu código de ética. Não determinar se este ou aquele personagem está certo é um caminho por qual Fuller opta em suas obras. Nada mais justo, já que o cinema não nasceu para julgar, nasceu para 'mostrar'. O discurso do cineasta é encantador, inebriante, tudo é aceito neste universo mas o próprio cineasta faz questão de destruir os diálogos de seus personagens. Não se pode acreditar no que as palavras dizem, pois Fuller faz questão de gritar: “o poder da câmera é como uma fonte em negrito”. A câmera é o instrumento da expressão desta arte, assim como a pena e a palavra dominam a literatura, o pincel e a tinta tomam conta da pintura, a câmera para o cinema não pode servir como adorno. Fuller acreditava e demonstrava esse poder da imagem,  que fez dele um 'eleito' em uma arte que o escolheu. O cineasta não escolhe o cinema como sua casa, a sétima-arte é que trata de eleger seus herdeiros.

 

A abertura de “Dragões da Violência” mostra tamanho ardor: um long-shot( plano geral) permite-nos observar, no centro do plano, figuras sentadas em uma espécie de diligência. No chão, o reflexo das nuvens se aproximam. O plano se fecha e somos apresentados a três personagens. Em meio a panorâmicas, travellings, ou na combinação destes dois elementos determinantes do cinema, somos apresentados aos 'quarenta cavaleiros' do título original: “Forty Guns”, ou 'quarenta armas'. Vemos um código sendo quebrado: quem comanda a cavalaria é uma mulher.


Uma cena  entre a 'armeira' e Wes aponta para diversos pilares recorrentes na filmografia do diretor. Wes, após ter celebrado o símbolo máximo de união, o casamento, leva um tiro pelas costas. A seqüência do assassinato é realizada com o uso dos agressivos 'Faux Raccord' ( Falso Raccord- onde o corte da cena é fora de continuidade, e este jogo é muito usado nesta obra). Vemos outro código dos western sendo violado, aqui se destrói para construir, anos depois uma turma da Itália lutaria nesse terreno, fazendo filmes onde a 'sujeira' dos personagens é um elemento determinante. Importante destacar outra cena onde Fuller destaca a violência e o amor, uma das cenas mais grandiosas e lindas do cinema: Wes, com o cano da arma, olhando para sua amada, a 'armeira'. Observamos a cena com o uso funcional da câmera subjetiva- observamos o que Wes observa. Nosso olhar é o dele, no plano. A cena termina com um beijo entre os dois.

 

Dragões da Violência” lança um tom baixo na fotografia. Lembrando em determinados momentos a escola alemã (Fuller não pertencia a nenhuma escola, criou a 'sua') de cinema expressionista. Sombras se jogam entre os personagens. Duas cenas memoráveis acontecem com os casais. Deitados, a armeira e Wes, unidos, abraçados, são 'cruzados' pela sombra de duas armas. Griff e Jessica também são cruzados pelas sombras. Samuel Fuller lança, novamente, sua visão de que o amor contém a morte, a violência. 

Muito mais que um campo de batalha de emoções, as obras de Samuel Fuller mostram o que muitos cineastas se esquecem de mostrar: que o cinema é uma guerra de pura manifestação artística.

Aerton Martins - APJCC

Nota do Editor: Texto  para o Ciclo Samuel Fuller no finado Cinema na Casa, em julho de 2008. Notem que este blogueiro já comentou muito sobre o autor do também sublime " Casa de Bambu", 1955. Quem manda ele ser um dos gênios desta grande arte.

 

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